domingo, 15 de maio de 2011

Ensaimos 6º feira. Dia 13/05/2011...

... mas não tivemos tempo de dar uma revisada, para relembrar. Mesmo assim, eu me sentia seguro. Udson não sentia a mesma coisa. Depois que estreamos, (isso já faz mais de um mês) ainda sinto o meu corpo quente, pronto para a ação, para cena, para A cor da chuva. (E olhe que é um espetáculo que exige muito da condição física do ator).

O espetáculo tem uma energia própria, necessária, para que aconteça. Udson e eu chegamos à conclusão de que temos que alcançar um alto nível de energia (Duas horas para energizarmos) para entrarmos em cena.  Sentimos isso nas últimas apresentações: Mar Vermelho, quando tivemos quase nem uma hora para alongar, aquecer e concentrar energia; Em Ibateguara, quase chegamos às 1h:15m. Só deu mesmo para alongar bem, mal deu para aquecer; E o melhor de todos os dias, mesmo com todas as dificuldades que tivemos com um público em sua maioria crianças, foi a melhor apresentação, no entanto, tivemos duas horas de preparação para a cena.

Eu sou o tipo de ator que só sabe entrar em cena transbordando energia. Minha formação me ensinou que tenho que entrar em cena, derramando suor e lágrimas de sangue. Sei que a guerra não é saudável para nenhum ser humano, mas quando essa guerra vai para o campo da metáfora, sinto que ela nunca deveria sair de lá. Essa é a sensação que tenho antes de entrar em cena, antes da cena, antes da estréia, antes da montagem: Estou indo para guerra.

Encarar uma montagem, primeiramente, não como um prazer ou, “eu queria fazer isso ou aquilo”, ou “não gosto desse tipo de espetáculo”, mas, encaro como uma missão a ser cumprida, para assim descobrir o prazer do desafio lançado. Não gosto de escolher personagem, mas gosto que o diretor ou o grupo me lance o desafio. Ser Ator é ser por natureza um criador. Que prazer encontrarei se  escolher o que acho mais fácil, ou que na primeira impressão, vaidosamente vou conseguir me destacar naquilo que mais domino. Onde ficará a construção realmente? A identificação de barreiras a serem superadas? Não. Para se construir teatro, o ator tem que se colocar em obstáculos, se lançar em desafios. Costumo dizer: Não me defino como comediante, dramático, trágico, tradicional ou contemporâneo... Mas como ator, “um camaleão”. É uma guerra saudável, deliciosa, prazerosa, vendo os resultados alcançados. Superar e supera-se a cada dia. A cada cena. Vencer todos os desafios que o espetáculo nos traz ou os métodos por ele exigidos. Como Grotowski diz: “O ator deve descobrir as resistências e obstáculos que o prendem na sua forma criativa.”, (livro: Em Busca de Um Teatro Pobre, Jerzy Grotowski, pg. 84).

Voltando a questão do ensaio de 6º feira, mesmo com mais de um mês parado depois das viagens, o texto e corpo dos atores continuam quentes. Quando chegamos à sala preta para o ensaio, estávamos com os corpos preguiçosos, e sob a orientação da nossa preparadora corporal, Carol Morais, recuperamos a memória do corpo e da mente. Não encontramos muitas dificuldades pra isso, porque acredito que os métodos por ela utilizados foram tão precisos que realmente nos condicionou a fazer certos movimentos que antes eu, especificamente, não conseguia. E mesmo depois de um mês meu corpo se mantêm predisposto a realizá-los. Sei que tenho muita coisa a aprender com ela. E juntos superarei muitos desafios.

Trabalhar com o Udson é maravilhoso. É uma pessoa muito respeitosa, muito inteligente. No processo de construção, construímos juntos (além da orientação da Beny e os olhos da Carol e do Mauricio), discutimos idéias, compartilhamos visões. Eu me deixei influenciar por ele e ele por mim. Doamos-nos um ao outro e consequentemente, a cena. Isso é muito importante. Não só o eu em cena, mas o nós os atores e todos que estão trabalhando intensamente para que o espetáculo aconteça.    

Beny é a “massageadora” do ego dos atores. Nunca tive diretora mais acolhedora do que ela. Ela nos envolve, procura nos deixar o mais confortável possível e nos dar muita liberdade para criarmos, nos passa muita confiança.

Mauricio e Carol ultrapassam os limites dos técnicos. Não se mantém indiferente ao que está acontecendo ou só interessados a cumprir suas funções, mas se envolvem, dão idéias e se preocupam muito com os atores, com as cenas e o espetáculo como um todo. Aliás, eles são “os olhos” da Beny, no bom sentido da palavra, quando ela viaja. Eles lutam e se preocupam para que o processo aconteça e os resultados sejam alcançados. No processo A Cor da Chuva o espetáculo foi se construído de forma harmônica.

A Invisível Companhia de Teatro é uma companhia romântica. Apaixonada por teatro. As coisas acontecem em bom humor e respeito. Para mim uma companhia inovadora mostrando como se deve fazer teatro cumprindo com suas obrigações. Preocupa-se não só com espetáculo, mas também com o bem estar dos atores. É um grupo que sonha e almeja, e luta para viver de arte, de teatro, e que quer mostrar que isso possível, mesmo sendo em Alagoas. Espero que ela seja exemplo para muitos grupos de teatro, os que estão começando e os que já existem. E que ela consiga prova que é possível conquistar o mundo mesmo começando de Alagoas.

Unidos venceremos!

 Att.: Cícero Rosa


terça-feira, 3 de maio de 2011

Fazer teatro é difícil...

Pois é, fazer teatro é difícil e nós sabemos disso, começa a ser difícil porque nós que trabalhamos com teatro sabemos que as outras pessoas têm uma certa resistência com a nossa profissão (sejamos atores, diretores, produtores, professores de teatro, cenógrafos, sonoplastas, iluminadores e tudo mais), além da dificuldade de desenvolver atividades continuadas que tenham como nos propiciar a dignidade de um salário justo (Quando conseguimos aprovação para um projeto de montagem é ótimo, quando não como fazemos?)

Em 2008 quando fui para São Paulo participar da montagem de "Os Possessos" dirigido por Antonio Abujramra com patrocínio da FUNARTE/SP quis muito continuar por lá depois que terminou o projeto, nos dois meses "desempregada" em Sampa, consegui alguns picos como operadora de luz, fazendo projeto escola e até VT de propaganda política, mas teatro mesmo não aconteceu, porque em São Paulo tem mais oportunidade e, proporcionalmente, mais concorrência, e vi que a mesma dificuldade que os grupos de Maceió tem para realizar suas montagens, os grupos de São Paulo também têm - e olhe que estou falando da Capital, quando o panorama parte para o interior a situação complica ainda mais. Para piorar minha situação sou uma atriz nordestina e sem perfil para publicidade, sim, isso acontece. 

Ter voltado para Maceió não foi uma derrota, não, foi uma  vitória pessoal pela possibilidade de sair de trabalhos acomodados e com pouco espaço para pesquisa, discussão e troca, para iniciar junto com Marco Antonio e Arnaldo Ferju o espetáculo "Voo ao Solo" e a Invísivel, e essa decisão de "desistir" de São Paulo só tem me dado alegria.

Agora estou em Buenos Aires fazendo um Seminário de Antropologia Teatral com Ana Woolf, o curso tá sendo bem puxado, mas tá sendo ótimo, e as informações se casam muito bem com um material que estou estudando de Eugênio Barba (Odin Teatret), além disso, estou acompanhando um processo em que Ana Woolf está dirigindo as atrizes Natália Marcet (que eu já conhecia por ter feito uma oficina ministrada por ela durante o Solos Férteis em Brasília) e Cecília Ruiz. O bom de observar o trabalho dos outros - principalmente quando os outros se trata de alguém com tanta experiência assim - é que podemos ver que nosso trabalho também tem uma trajetória e o que pensamos de teatro em Maceió não é muito diferente do que se pensa em Buenos Aires ou em Holstebro.

Na saída do primeiro dia de ensaio estava justamente conversando com Natália sobre as dificuldades de fazer teatro e são exatamente as mesmas que nós encontramos em Maceió, por exemplo: dos espetáculos que estão em cartaz por aqui, 90% foram montados através de algum prêmio para montagem, os grupos escolhem fazer apresentações para poucas pessoas porque assim garantem "casa cheia" e uma vida útil para o espetáculo um pouco mais longa. O que conversamos mais foi sobre o fato de que às vezes sair dos grandes pólos para fazer teatro se torna mais viável, porque além da concorrência numa cidade pequena ser menor, há mais visibilidade para quem trabalha com teatro, porém a desvantagem é que também há menos recurso.

Enfim, vantagens e desvantagens existem em qualquer lugar, o importante é encontrar mecanismos de atuação e manutenção não apenas dos grupos, mas principalmente das pessoas que fazem parte dele. Como pensar no teatro como profissão e não como passatempo, como fazer dele o seu sustento ao invés de sustentá-lo. É algo a se pensar.


2014 - um ano de muita pesquisa

Então, desde o final de 2014 o tempo tem sido cada vez mais escasso apenas pelo fator MESTRADO, tão raro que, ao vir atualizar o blog me de...